O problema não é cair — é fazer morada no pó,
é achar conforto na poeira da derrota,
é chamar de abrigo o frio da queda,
quando o coração esquece que nasceu para o alto.
Sete vezes cairá o justo, diz o sábio,
mas o vento do Espírito o erguerá outra vez;
porque há uma força secreta no que sofre,
e um brilho escondido nas cinzas da fé.
Cair não é fracasso, é lembrança da origem,
é tocar o chão que nos sustenta,
é aprender que o voo não nasce das asas,
mas do desejo de não pertencer ao abismo.
O chão, porém, seduz com falsa paz:
ele chama de descanso o que é desistência,
e ensina o corpo a amar o próprio peso,
quando a alma anseia por altura.
O justo se levanta porque crê no amanhã,
porque sente que o sol ainda o chama pelo nome;
cada queda é um degrau invertido,
um aprendizado em forma de dor.
Mas os ímpios tropeçam no mal que cultivam,
fazem da sombra o espelho de sua sorte;
e o justo, mesmo ferido, caminha,
sabendo que cair é humano — levantar é divino.
*Cf. Pv 24,16.