Nunca volte a ser amigo de quem destruiu tua imagem,
de quem tentou corromper teu amor ou teu sustento,
de quem penetrou o sagrado da tua intimidade
como ladrão que invade a casa da alma,
pois a serpente que troca de pele
não o faz para mudar, mas para crescer no veneno.
Na lógica do poder, o traidor não dorme:
espera o tempo e o descuido do justo,
sorri enquanto afia a língua,
e finge arrependimento sob a máscara da brandura.
A ocasião é o altar da repetição,
e o engano é a liturgia dos dissimulados.
Desconfiança, às vezes, é sabedoria em defesa própria,
escudo que protege o coração ferido,
lembrança viva de que o perdão não exige convivência.
Perdoar é humano, é centelha divina,
mas manter o algoz por perto
é abrir a cova da própria paz.
A prudência é a amiga silenciosa
que caminha ao lado da alma íntegra,
a que observa antes de falar,
a que sente o cheiro do perigo no ar
e prefere a solidão digna
à companhia dos falsos arrependidos.
Confiança é cristal — belo, mas frágil,
não se remenda sem deixar marcas.
Quem a quebra e não demonstra valor
não merece mais o seu reflexo.
Há perdas que são livramentos,
e afastar-se, às vezes, é salvar-se.
Cuida, pois, da tua saúde psíquica,
do bem-estar que nasce da serenidade.
O coração não é campo de guerra,
nem templo de quem profana a verdade.
Afasta-te dos que te usaram como degrau,
e caminha em paz — leve, prudente, inteiro.