Às vezes, mirando o céu, perguntamos em silêncio:
por que a mim? — e o vento parece calar,
como se o infinito guardasse um segredo antigo,
como se o próprio tempo pedisse que esperássemos
a resposta crescer dentro, e não vir de fora.
O destino não fala em palavras, fala em feridas,
em estradas longas, em portas fechadas e reabertas,
em perdas que esvaziam, mas também limpam,
em golpes que acordam a alma adormecida
para o ofício sagrado de continuar.
Cada queda tem o peso da revelação,
cada dúvida, o dom de nos despir da vaidade.
O que rompe também molda, o que fere também ensina,
e no espelho do sofrimento, o ser se refaz,
com olhos que agora veem o invisível.
Não é castigo — é preparação silenciosa,
um lapidar paciente daquilo que ainda seremos.
A dor é apenas o cinzel de Deus,
a talhar na pedra bruta da existência
a forma do amor que ainda não sabemos pronunciar.
Porque quem caiu e se levantou
não vive mais da mesma forma.
Há uma luz no olhar de quem voltou do abismo,
um respeito novo pelo mistério da vida,
e uma gratidão que não precisa de palavras.