Perguntam-me por que não confio em ninguém,
como se a confiança fosse uma porta
que se abre sem memória.
Mas quem carrega marcas na pele
aprendeu a ler o silêncio das feridas.
Não foram inimigos que me feriram.
Deles eu já esperava a espada.
As cicatrizes que carrego
vieram de mãos conhecidas,
de vozes que um dia chamei de abrigo.
Foram abraços que se tornaram distância,
palavras que prometeram cuidado
e depois viraram lâminas.
E assim a alma aprende
que nem todo amor sabe proteger.
Por isso caminho atento,
não por orgulho,
mas por memória.
Cada cicatriz é uma lembrança
do lugar onde confiei demais.
Se hoje me perguntam por que desconfio,
eu apenas sorrio em silêncio.
Porque nenhuma das minhas cicatrizes
foi feita por um inimigo —
todas vieram de perto demais.