O inferno que passei não tinha demônios,
tinha rostos conhecidos, vozes familiares,
palavras que feriam mais que qualquer lâmina,
sorrisos que escondiam desprezo,
e silêncios que me apagavam aos poucos.
Não havia fogo, mas eu queimava por dentro,
não havia correntes, mas eu estava preso,
preso em olhares que julgavam sem entender,
em gestos que me empurravam para o fundo,
como se minha dor fosse exagero.
Fui caindo devagar, sem que percebessem,
ou talvez percebessem e escolheram não ver,
cada dia um pouco mais vazio,
cada noite um pouco mais escura,
até que existir virou um peso insuportável.
Houve um instante em que pensei em partir,
em silenciar de vez tudo o que doía,
não por fraqueza, mas por exaustão,
por não encontrar abrigo em lugar nenhum,
nem mesmo dentro de mim.
Mas ainda respiro, mesmo ferido,
carregando marcas de um inferno sem chamas,
aprendendo, dia após dia, a não desaparecer,
porque sobreviver também é um ato de coragem,
mesmo quando ninguém vê.