quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre Dois Pensamentos


Há um campo silencioso dentro de nós,
onde pensamentos disputam direção,
uns pesam como terra sobre os ossos,
outros respiram como vento livre,
e ali se decide o destino da alma.

A mente carnal sussurra urgências vazias,
promete muito e entrega ausência,
alimenta-se do instante que apodrece,
e constrói caminhos que terminam
sempre no mesmo lugar: o nada.

Mas a mente espiritual floresce no invisível,
mesmo quando o mundo não percebe,
ela se inclina ao eterno, ao que não passa,
e aprende a ouvir Deus no silêncio,
onde a vida começa antes de existir.

Entre essas duas vozes caminhamos,
carregando em nós a escolha diária,
morrer aos excessos que nos aprisionam
ou viver na leveza do que é alto,
onde a alma encontra seu verdadeiro peso.

Lembrai-vos, portanto, no íntimo mais profundo:
nem todo pensamento conduz à vida,
há caminhos que respiram morte disfarçada,
e outros que, ainda estreitos, brilham eternidade,
porque pensar em Deus é já começar a viver.

Cf. 2Né 9, 39.

Levantados pela Graça


Que a voz do Alto ecoe no silêncio das nossas quedas,
e onde a morte parecia definitiva,
nasça um sopro novo, invisível e eterno,
erguendo o que estava prostrado,
como luz que não pede permissão para brilhar.

Do pó das dores e dos erros ocultos,
Deus nos chama pelo nome que nunca esqueceu,
e Sua mão, marcada de amor,
rompe as pedras que fechavam nossos sepulcros,
fazendo da perda um começo inesperado.

Pela força da ressurreição, somos recriados,
não apenas no corpo, mas na esperança,
e aquilo que era fim torna-se passagem,
um limiar entre o que fomos
e o que a graça ainda deseja formar.

E da morte eterna, sombria e silenciosa,
somos resgatados pela expiação que nos envolve,
como um abraço que não condena, mas restaura,
restituindo ao coração sua dignidade perdida,
e à alma, o caminho de volta para casa.

Então, no Reino que não conhece ocaso,
nossos lábios cantarão o que hoje apenas cremos,
e a eternidade será louvor sem fim,
porque tudo será graça, tudo será Deus,
e nós, finalmente, plenamente vivos.

Cf. 2Né 10, 25.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Mesa que Não se Aprende de Cor


Não adianta repetir versículos
como quem recita mapas de um lugar
onde nunca pisou;
a fé que não atravessa a sala
morre antes de chegar à mesa.

Há palavras que soam santas
mas não suportam o peso do outro,
não acolhem o rosto diferente,
não escutam o silêncio
de quem carrega outra verdade.

Conhecer de cor não é conhecer de dentro,
não é rasgar o próprio orgulho,
nem repartir o pão com quem discorda,
nem sustentar o olhar
sem transformar o outro em inimigo.

A mesa é altar e espelho,
e nela não cabem apenas certezas,
mas também a humildade
de quem ainda está aprendendo
a amar sem vencer discussões.

Porque no fim, mais que saber,
é preciso permanecer;
e permanecer, às vezes,
é sentar-se ao lado do diferente
e não se levantar em guerra.

domingo, 22 de março de 2026

O Silêncio que Grita


Que ironia —
costurar os lábios para não ferir o mundo,
e, no entanto, ferir a si mesmo em segredo,
como quem guarda tempestades no peito
e chama isso de paz.

Você engole palavras como se fossem espinhos,
acreditando que o silêncio é abrigo seguro,
mas ele ecoa dentro de você como um grito preso,
rasgando por dentro aquilo que por fora
permanece intacto.

Evitar o confronto parece sabedoria,
até que a alma começa a cobrar presença,
até que o coração cansa de ser ausente
na própria história que deveria viver,
como figurante da própria verdade.

E então o conflito muda de lugar:
sai do mundo e vem morar em você,
faz casa no seu pensamento,
senta à mesa com seus medos,
e não vai embora enquanto você não fala.

Porque há guerras que só terminam
quando a voz encontra coragem,
quando o silêncio deixa de ser esconderijo
e se transforma em ponte —
e você, finalmente, atravessa.

A Graça que Anda Disfarçada


Às vezes você olha para o vazio das próprias mãos
e pensa que a vida esqueceu de lhe entregar algo,
como se o tempo tivesse passado por você em silêncio,
sem deixar sinais, sem cumprir promessas,
como se houvesse um atraso no seu destino.

Mas há um segredo que o espelho não revela:
você tem sido resposta onde outros só tinham perguntas,
tem sido abrigo onde havia tempestade,
luz acesa em quartos onde ninguém mais acreditava,
milagre discreto que não faz barulho.

Enquanto você espera por algo extraordinário,
alguém agradece por ter cruzado o seu caminho,
alguém respira melhor por causa da sua presença,
alguém encontrou sentido onde antes era só dor,
e você nem percebeu o quanto mudou aquele dia.

Nem toda bênção chega como presente nas mãos,
algumas nascem em você e se espalham pelo mundo,
sem anúncio, sem aplauso, sem reconhecimento,
mas carregadas de um valor que não se mede,
porque transformam vidas sem pedir nada em troca.

Talvez o que você chama de ausência
seja, na verdade, excesso de entrega,
e aquilo que você esperava receber
já tenha sido dado através de você —
pois, às vezes, você é a coisa boa que acontece com os outros.