domingo, 22 de março de 2026

O Silêncio que Grita


Que ironia —
costurar os lábios para não ferir o mundo,
e, no entanto, ferir a si mesmo em segredo,
como quem guarda tempestades no peito
e chama isso de paz.

Você engole palavras como se fossem espinhos,
acreditando que o silêncio é abrigo seguro,
mas ele ecoa dentro de você como um grito preso,
rasgando por dentro aquilo que por fora
permanece intacto.

Evitar o confronto parece sabedoria,
até que a alma começa a cobrar presença,
até que o coração cansa de ser ausente
na própria história que deveria viver,
como figurante da própria verdade.

E então o conflito muda de lugar:
sai do mundo e vem morar em você,
faz casa no seu pensamento,
senta à mesa com seus medos,
e não vai embora enquanto você não fala.

Porque há guerras que só terminam
quando a voz encontra coragem,
quando o silêncio deixa de ser esconderijo
e se transforma em ponte —
e você, finalmente, atravessa.